O drama de compartilhar o conhecimento versus o ego

Lembro do primeiro dia de aula no pré-escolar. Dias antes muitos me disseram que matemática era muito difícil. Me armei até os dentes para a temida matemática. E a matéria tornou-se a favorita desde o pré-escolar. Tanto que na primeira série (antigo primeiro ano do ensino básico) não perdi nenhum ponto e, todo orgulhoso, guardo até hoje o boletim com a belíssima letra da professora Rita assinalando 100 naquela matéria que todos achavam difícil.

Na 6ª série, ou primeiro ano do ensino fundamental, tive um professor de matemática excelente. Talmy era o nome dele. Explicava com calma, era detalhista e nos ensinava outros caminhos para o resultado correto. Primeiro, o mais complicado, depois o mais simples.

Depois das aulas do professor Talmy eu entendi o porquê de muitos não gostarem de matemática. Há professores de matemática que se acham poderosos por ter domínio sobre um assunto que a maioria tem dificuldade. Eu sei, você não sabe. Assim como o mágico que não ensina todos os seus truques o professor de matemática também não compartilhava com seus alunos todo o conhecimento que tinha. Aquilo lhe dava status.

Surgiu então uma vontade enorme de ser professor de matemática. Sim. Eu queria ser professor de matemática. De maneira simplista eu queria mostrar para as pessoas que matemática não era algo difícil e, diante da minha facilidade, tentar tornar fácil para as outras pessoas também.

Fiz vestibular para matemática em 2003. Não fui aprovado graças à biologia. Queria, de verdade, ensinar matemática. Dividir com as pessoas e mostrá-las que aquilo não era um bicho de sete cabeças. Queria lidar com a vaidade de saber…

Escapei das exatas, mas não de uma profissão cujo ego confronta diretamente com os interesses e, saber compartilhar, às vezes, o coloca no fio da navalha.

Eu não percebi antes, mas a matemática já sinalizava para o jornalismo. Eu nunca me conformei, por exemplo, com a determinação dos professores de que todo número elevado a zero é igual a um. Eu sempre perguntei o por quê disso. Isso deve ter uma explicação. No cursinho pré-vestibular um professor chamado Dárcio Jr. fez o que nenhum professor de matemática havia feito até então. Me explicou um porquê: justamente o de todo número elevado a zero ser igual a um.

A explicação: na subtração de potência de mesma base conservamos a base e subtraimos o expoente. Logo 43 : 43; conservamos a base: 4; subtraimos o expoente: 3-3=0; logo, temos 40; OK. E finalizou: estamos fazendo a divisão de um numero por ele mesmo, não é? Quando dividimos um número por ele mesmo o resultado é 1. Portanto, uma divisão de um número por ele mesmo não pode dar um resultado diferente de 1. É por isso que todo número elevado a zero é igual a 1, porque estamos diante da divisão de um número por ele mesmo.

Pode ser que eu não tenha explicado corretamente, mas me recordo muito mais do gesto do professor Dárcio em elucidar isso do que a questão em si. É isso que devemos esperar de um professor. O verbo não é saber, é compartilhar!

Fui parar no jornalismo. O que eu buscava era mesmo ‘o porquê’. E o jornalismo também tem o ego inflado de quem detém a informação mas reluta em dividí-la. Quem toma conhecimento de um fato e insiste em ‘ter informação privilegiada’ não atendendo ao interesse público.

É importante também saber a hora e a maneira correta de tratar e compartilhar uma informação. Nessa fogueira de vaidades circulam interesses que vão além do bom uso da profissão e passam longe da “missão” de compartilhar e tornar público algo relevante. Nessa hora sempre vale verificar a veracidade e ter habilidade para perceber se é, de fato, algo relevante que vá contribuir para as pessoas.

Como bem disse o jornalista Caco Barcelos no programa Provocações: “A boa função do jornalista é dar grandeza às histórias dos outros. Descobrir nas pequenas coisas algo edificante

Tá bom. Eu não trabalho com jornalismo. Mas meus professores, meus colegas de profissão e o cotidiano já se encarregaram de me mostrar que conhecimento nunca é demais; compartilhar conhecimento é muito saudável e nos faz crescer; lidar com o ego é muito difícil.

É um exercício diário.

O professor de matemática e o jornalista: duas profissões que lidam com o ego, o “poder”, a vaidade e que são importantíssimas para a disseminação do conhecimento. Dois desafios. Escapei de um, cai no outro.

1 Comentário

  1. judete gonçalves pinto

    excelente depoimento do jornalista Everaldo Vilela , sou professora de biologia mas neste ano vou lecionar matemática para uma turma de 6ª série , e tenho exatamente a mesma visão dos professores de matemática , se acham os detentores do SABER ,por isso penso em trabalhar de uma forma diferente com meus alunos .

    Reply

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>